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soutodaamor

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Coisas que vou lendo #1

Ontem, li este excelente texto, numa "plataforma de ideias" como é designado pelas suas criadoras.

De seu nome "Maria Capaz", "assume-se como Feminista, tendo como objectivo contribuir para a igualdade de Direitos e Deveres entre homens e mulheres...". Por lá encontram-se vários testemunhos, ideias, textos livres, ensaios fotográficos, ensaios literários, moda… 

Mas vamos ao texto que li:

"QUE SE FODA A BELEZA por Maria L de M

Sou um ser de 30 e poucos anos. Quando nasci, a cruz dos documentos oficiais ficou na letra F e assim continua. Sou uma pessoa cisgénero feminina.

Mas nunca fui, nem sou normativa.

Em criança era especial, lia muito, tinha conversas de adultos, diziam. Na verdade olho para trás e talvez já tivesse um pouco de mania. E reconheço, sim, sempre fui diferente.

Nunca passei por mulherzinha, nem muitas vezes por menina, sequer. Vou-me sentindo, vivendo, sendo mulher. Mas antes de tudo, e em primeiro, sou um ser humano.

Já a minha identidade de luta, política, essa sim, claramente, feminina e feminista.

E de um ser que ninguém encaixava fui trabalhando o acto performativo e passo, agora, bem e com distinção por mulher, sempre com M grande, exótica, e D grande também no diferente.

Desde pequena que me atormentam as caixas. E de género feminino a que nos cabe a todas é sempre a mesma, a de bonita. Uma menina é bonita. Já um rapaz é reguila, esperto, desenrascado e activo.

Como era tudo isto, em criança, era Maria-rapaz. Mas com um lado demasiado rato-de-biblioteca para esse rótulo perdurar. Em adolescente, fugindo a todas as qualificações possíveis, era apenas estranha (agora já há o rótulogeek). Confundia em género, orientação, interesses, formas de estar e vestir. E fugia de todos, com medo de maisbullying, refugiada atrás de uns headphones e um walkman agora velhinho e com a cabeça sempre no meio de um livro.

Eu sentia-me menina, gostava de meninos (e de meninas também, mas só mais tarde percebi), mas simplesmente não passava. O meu cabelo nunca ficava arranjado, as roupas arranjavam sempre maneira de se sujar ou enrugar, e as minhas opiniões eram sempre demasiado estranhas. Fui chamada de macho a bicho-do-mato, de cara de cavalo a orelhas e o que mais ouvi, foi de certeza a palavra “feia”. Esse insulto inominável que é suposto retirar todo o valor a qualquer fêmea. E com sorte, tira-lhe a voz.

Cresci e de patinho feio mais que cisne virei ganso, aceitei-me por completo, afirmei-me com distinção e aprendi a grasnar bem alto.

Se me virem agora na rua, sim, passo pelo vosso bonito. Sei até ser uma mulher de uma sensualidade tremenda e muito boa sedutora. Mas sabem o que vos digo? Quero é que o bonito se foda. Não me interessa essa caixa.

Tenho um valor imenso, e reconheço que entre os adjectivos aplicáveis pode com justeza aplicar-se essa tal beleza. Mas as minhas qualidades? Não é ser bonita, sou forte, sobrevivente, lutadora. Tenho um coração maior que os meus braços e a capacidade de amar e receber amor de muita gente. Tenho a desenvoltura intelectual suficiente para me dar bem naquilo em que me aplico e uma cultura de base que me agrada. Não tenho medo de trabalhar com as mãos e trato-me bem a mim e aos meus. Tenho uma sede imensa de novas aprendizagens e conhecimentos.

Se sou bonita? Há quem diga que sim. Eu sinto que sim, mas da mesma maneira que sinto outras tantas coisas acessórias em mim. Não é de todo o meu valor essencial. E embora entenda este caminho de valorização de todos os corpos, caras e figuras, estes motes da Dove, que diz todas somos bonitas, talvez em vez de estarmos a acabar com a ditadura da beleza, estejamos só dar-lhe mais comida.

Era bom que nos juntássemos todas em grito, olhássemos para tantas outras características que nos são mais essenciais e amássemos o nosso corpo, porque nos permite ser, ter, receber e dizia-se assim:

“Que se foda essa beleza, que nos impõem, vendem e com que nos consomem, beleza fixa ou abrangente, que vai da auto-estima ao assédio de rua, da capa da revista à luta política (“mulher bonita é a que luta”). Somos autónomas, inteligentes, capazes de produzir e criar o espanto e o progresso. Cale-se o dito mais reproduzido do Vinícius.”

Somos tanto, para que é que na verdade ainda precisamos de ser bonitas?"

Texto original aqui.

Acrescentar só que a ultima frase ficou cá dentro! AMEI!

Beijo-vos e Abraço-vos, sim?!

 

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