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soutodaamor

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365 dias de cruel saudade...

 

Completam-se hoje 365 dias que meu Pai partiu.

Homem de 1,83mt e com pêlo no peito.

Gostava de respeito.                                                                             

Fazia-se respeitar.

Workaholic.

Total e absolutamente.

Trabalhou SEMPRE, apesar da doença.

CANCRO.

Esse bicho.

Essa coisa feia e filha da puta que tantas vidas leva.

Levou o meu Pai. Em 10 meses roubou-nos o nosso Vazé.

Há 365 dias fez a passagem.

Naquela manhã, ás 07:15 a Mamã telefonou.

Tinha passado a noite no hospital com o Papá. Já não saia de lá desde o dia 2, quando a notícia foi dada.

“O Sr. Cintra está todo metastizado. Um dos pulmões já não funciona. O outro funciona a 20%. Não chega ao fim do Verão.”

Foi dito assim. Foi dito porque nós quisemos.

Estávamos fartos de viver na expectativa.

E foi dito ao Sr. Cintra. Foi dito porque ele quis. Porque exigiu. A nós e aos médicos. E foi-lhe feita a vontade. Com o meu irmão presente. Porque eu e a Mamã não tivemos coragem. Ficamos no corredor.

“Sr. Cintra os seus pulmões estão fraquinhos. Estão metastizados.”

“Vou sofrer Dr.?”

“Não Sr. Cintra, não vai. Nós estamos cá para isso.”

“Chego ao Natal?”

“Provavelmente não.”

“Ok.”

“Não digas nada á tua Mãe nem á tua irmã.” Pediu o Papá ao meu irmão.

A Mamã não saiu mais daquele hospital. Ficou com o Papá noite e dia, num quarto só para nós. A família podia entrar e sair. Quando quisesse. Todos nós. Esposa, filhos, genro, nora e netos. Tínhamos carta branca.

E ás 07:15 da manhã de há 365 dias atrás a Mamã telefona-me.

Era domingo.

Eu ia lá passar o dia com a Mamã e o Papá.

E o telemóvel tocou.

“Olá Mamã! Bom dia! Vou ap…”

“Vem depressa! O teu Pai já está muito fraquinho.”

E eu enlouqueci.

Enlouqueci, com toda a força que a loucura tem.

Durante minutos perdi a razão.

Desorientada.

Na cozinha.

De um lado para o outro.

Minutos.

Perdi a razão.

Acordei o Maridão.

E voamos para lá.

Entrei naquele hospital feita louca.

Porque era como eu estava.

Louca.

Sem a razão.

Entrei naquele quarto.

Papá não esperou por nós.

Por mim, Maridão e irmão.

Partiu 5 minutos antes.

Já não o olhei nos olhos.

Já não lhe disse que o amava uma última vez.

Já não lhe disse que podia ir.

Fê-lo a Mamã.

Por todos nós.

E ele foi-se. Serena e calmamente. E disse-lhe “Amo-te”. A ela. Á Mamã.

E partiu.

E o médico cumpriu a promessa.

Não sofreu.

TREZENTOS E SESSENTA E CINCO DIAS.

Que parecem 24 horas.

Abraço do tamanho do mundo, onde quer que estejas Papá.